O cinema vai morrer?

Antes de especular sobre a possibilidade real do fim do cinema temos que compreender que cinema não é apenas filmes e produções. Ele é na verdade uma cultura, uma prática social que é realizada em determinado tempo e espaço. Do ponto de vista técnico o cinema se tornou possível devido a um conjunto de evoluções e transformações tecnológicas e científicas que permitiram dar vida e movimento a fotografias. Dai a origem da palavra “movie” que traduzimos como filme. Mas por mais que o filme seja um elemento importantíssimo para a realização do cinema ele não é o único.

Quando em outubro de 1888 Louis Le Prince fez a primeira captação de vídeo não se tinha ideia do processo de evolução técnico e social que tornaria aquela ferramenta a principal mantenedora do cinema. O vídeo que retrata apenas o jardim de Roundhay foi um marco técnico. Porém, a forma como os indivíduos coletivamente usara dessa ferramenta para criar “textos audiovisuais” é o que faz emergir a ideia e a concepção de cinema.  Então, antes de tentarmos responder se é possível o fim do cinema com base nas novas formas de compartilhamento de vídeo que surgiram, principalmente pelo papel dos novos meios de transmissão de vídeo como as ferramentas de streaming e as redes sociais de vídeo, temos que entender o que é de fato cinema.

O conceito de cinema não é o mesmo de vídeo. O cinema pode ser visto como uma forma de linguagem de comunicação visual, mas também como um hábito cultural. Ambos evoluíram com o tempo. O cinema como gênero textual tem um caráter predominantemente narrativo, por mais que existam outros gêneros menos narrativos e com expressões puramente descritivas e até documentais. Todavia, também é presente em gêneros documentários “histórias narradas”. A diferença é que a ficção deixa claro que os acontecimentos narrados não são necessariamente reais e as narrativas documentais tenta deixar claro que o que  se conta ali é uma história real.

Pois, tendo-se em vista o cinema como uma forma de linguagem audiovisual que começou a ganhar força no inicio do século XX e que ser reinventa e se diversifica, criando inclusive subgêneros como por exemplo terror, suspense, ação, aventura e drama, qual será seu futuro? Será que o cinema é apenas uma linguagem ou que precisa também de outros elementos, inclusive até físicos e culturais, para existir?

Acredito que cinema também é cultura. Não cultura do ponto de vista visto pelo senso comum, como algo que é produzido do povo para o povo, mas pela visão comportamental que só pode ser vista por uma observação de elementos do dia a dia. O teatro pode ser um gênero textual literário, mas é também uma performance que pressupões sua existência no tempo e no espaço. Para o teatro existir é importante que exista o lugar teatro, que exista o publico que vá para esse lugar e que essa prática se enraíze no tempo. O teatro já mostrou que pessoas se reunirem em grupos para observar performances artísticas feitas no calor e no despojamento do momento é algo que atrai públicos há milênios e ninguém em sã consciência é capaz de cogitar um mundo sem teatro. Podemos discutir sua popularidade hoje em dia, sua adesão e valorização pela sociedade, mas nunca sua existência ou a morte. Mas e o cinema?

Além de uma linguagem o cinema também é um lugar, uma prática que reúne pessoas em um ritual coletivo. Não existe cinema sem a coletividade, a telona e o ineditismo. Por mais que hoje podemos ver filmes em casa, ou até mesmo em outros ambientes diferentes do cinema tradicional, a existência do cinema depende da permanência do lugar cinema. Temos os streamings e produtora que fazem filmes que sequer vão para as telonas. Muitos desses filmes têm o padrão de produção bem alto, participando até mesmo de premiações tradicionais do cinema como Óscar e Globo de Ouro.

Com base em tudo isso e em mais um pouco que não foi dito aqui, ouso “chutar” que o cinema é imortal, assim como outras formas de comunicação, como o rádio e a televisão, pois a partir do momento que essas manifestações passam a existir trazem elementos que, por mais que podem ser a certo nível cooptados por novas formas de comunicação mais recentes, ainda são únicas na essência que explica sua razão de ser.

 Os meios podem se transformar, mas para ser possível sua inexistência por completo depois de se tornar um hábito social é praticamente impossível pensar no seu fim. Seria como pensar no fim do tradicional chá das cinco na Inglaterra, ou das cinco orações diárias dos islâmicos. Por fim, acredito piamente que sair de casa para assistir um filme inédito em uma tela bem maior do que encontramos por aí na companhia de estranhos é um hábito difícil e improvável de ser substituto ou findado. Principalmente se levarmos em conta outros elementos estruturais, como a sala grande, aconchegante, bem arejada e um belo balde de pipoca com refrigerante. 

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